Queremos poder confiar em alguém

avo-e-netoA vida na pequena cidade, assusta o morador da enorme metrópole.
Ele não entende como as pessoas confiam umas nas outras daquela maneira …
Estão conversando, de repente vão ali e deixam as coisas com outros, que também vão embora, e também deixam as coisas ali … e … ninguém pega.
A pessoa volta, e encontra o que deixou, mesmo que seja de valor, porque simplesmente, ninguém na cidadezinha pega o que é do outro sem pedir.

Sentado à mesa com um senhor de lá, enquanto esperava meu primo que se trocava, para irmos a uma fazenda ali perto, eu não consegui me conter, e falei:

– Isso é porque vocês não devem ter viciados em crack por aqui. Porque senão … pelo menos eles, iriam ter virado ladrões por causa da vontade pela droga.

E o velhinho respondeu sorrindo:

o velho e o menino- Na verdade, tem uns dois ou três que quando voltam da capital, ficam daquele jeito zumbi, não é?

E já roubaram sim, por aqui. Infelizmente.

– Puxa, não disse? Comentei eu, meio que, desolado por ter matado na mosca o obvio dos dias de hoje no mundo. E ainda chateado por não ter aproveitado a mágica daquele lugar, onde as pessoas ainda se respeitavam, e viviam em total paz e tranquilidade, eu perguntei ao senhor, que depois me disse que se chamava João da Penha:

– Mas me diga uma coisa, o que vocês fazem pra se proteger? Vocês já começaram a colocar grades nas janelas, cadeado nos portões todos …?

o velho e o menino - 2- Imagina …. menino. Quem tá precisando se proteger são eles, coitados. Eles tão doentes. A gente não pode mudar a rotina da nossa vida, por causa da doença de um ou dois, não é? A gente tem é que ajudar. E foi o que a gente fez. Teve um que sumiu aí, e não quis ajuda de jeito nenhum e foi embora. Mas os outros dois, tão aí, graças a Deus, com saúde, trabalhando e sustentando as ‘família’ deles. Por acaso, um deles é meu filho. Aquele que acabou te servir o lanche e o suco, e que saiu pra levar a filha pra escola.

Bastante entretido com a conversa do senhor, e com a sensação de que tinha levado um soco fortíssimo no meio da cara, nem cheguei a perceber a chegada do meu primo, que parecia estar me cutucando antes de eu conseguir me virar. Na verdade, o velhinho ali, tinha me feito enxergar um problema de saúde, e não uma questão de segurança pública, pela primeira vez. É claro que a vergonha ajudou um bocado, mas fazia todo sentido do mundo.

E na mesma hora, me senti mal. Não apenas com o episódio de ter tocado no último assunto que eu deveria ter puxado ali, mas principalmente, porque percebi mais uma vez, o quanto eu ainda era preconceituoso. E com um monte de coisa. E eu nunca fui muito bom em aceitar, e corrigir defeitos.

Pra mim, ter dó de ‘nóia’, era coisa de esquerdista chato. Mas pela primeira vez, vi a coisa por um outro prisma.

Fomos embora, mas o rosto e as palavras daquele velho, não me saíram da mente, até que chegássemos à fazenda.um-velhinho-de-praca



Categorias:Contos

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